sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Artigo Sobre a Utilização da Música na Sala de Aula - Click aqui para ver o artigo original

A UTILIZAÇÃO DA MÚSICA COMO FERRAMENTA NO
ENSINO-APRENDIZAGEM

Shirley Correia Alencar
Faculdade de Ciências da Universidade do Porto

RESUMO


No presente artigo desenvolve-se uma análise informativa da maneira como todo o ser humano pode se beneficiar de atividades lúdicas, tanto pelo aspecto da diversão e prazer, quanto pelo aspecto do ensino-aprendizagem. Desta forma pretendo explorar a utilização da música como principal ferramenta metodológica que contribui para inúmeras aprendizagens e principalmente para a ampliação da rede de significados construtivos no ensino de Ciências Naturais para crianças e jovens do Ensino Fundamental (do 1º ao 9º ano). Com exemplos e demonstrações de etapas a seguir pelo educador, mostrarei o caminho que descobri, através de pesquisas, para obtermos sucesso com a utilização da música nas aulas de Ciências Naturais. Foi neste contexto, de interação entre os seres, que surgiu a utilização da música na sala de aula, a Biomúsica, paródias com temas das diversas Ciências, composições próprias de alunos e professores e também aulas envolvendo outras disciplinas como a geologia e a língua portuguesa.
Palavras-chave: música na sala de aula, atividades lúdicas, estratégias para o ensino-aprendizagem, biomúsica, músicas para Ciências Naturais.

Contexto histórico da utilização da música no ensino-aprendizagem


Nos anos 70, Georgi Losanov, médico e psicoterapeuta da Universidade de Sófia, na Bulgária, descobriu que a música barroca incentiva o lado direito do cérebro, permitindo uma maior disponibilidade para a aprendizagem de novos conhecimentos, principalmente para cursos de línguas (Cérebro x Aprendizagem). Os alemães intensificaram-se nestes estudos e criaram um curso chamado Superlearning (Super aprendizagem). Este curso, composto por 24 lições gravadas e em livro, prometia ensinar inglês com apenas 25 minutos de dedicação por dia, mas sempre com a utilização da música barroca de fundo.
A Audi (empresa de automóveis) e a Sony (empresa de eletro-eletrônicos), por exemplo, utilizam este método para ensinar inglês, espanhol e alemão aos seus funcionários. Dessa maneira, eles afirmam estimular o lado direito do cérebro e acelerar a aprendizagem.
Nos anos 90 (década do cérebro) a necessidade de conhecimento sobre o sistema nervoso cresceu fantasticamente, levando estudiosos, pesquisadores, psicólogos, psiquiatras, pedagogos e educadores a refletirem sobre as diversas formas de aprendizagem de acordo com a forma como o cérebro humano funciona. Nesta época Johnson & Myklebust (1991) descobriram que o cérebro funciona de forma semi-autônoma, ou seja, um sistema pode funcionar sozinho, com dois ou mais sistemas ou ainda de forma integrada.
Se o ensinante toma conhecimento deste funcionamento cerebral, pode ressignificar sua prática docente adotando uma didática que caminhe na forma sensório-motora ao funcionamento operatório formal. (SOARES, 2003).

Nesse contexto que está sendo abordado, utilizar o ensino-aprendizagem inter-neurosensorial (de sensações) é o tipo de sistema que mais interessa aos educadores. Estudos mostram que certa aprendizagem ocorre quando dois ou mais sistemas funcionam de forma inter-relacionada. Fazer uso da música em atividades escolares é um recurso valioso, pois há a possibilidade de trabalhar simultaneamente os sistemas auditivos, visuais e até mesmo o sistema tátil (caso a música seja dramatizada).

Porque utilizar a música na sala de aula


A música não é apenas uma combinação de sons, de notas dentro de uma escala, com melodia, acordes, ritmo, tempo e contra-tempo, mas também ruídos de passos, sons que saem dos diversos instrumentos existentes ou inventados, sons eletrônicos, ou ainda que se articulam com a cultura na forma de se vestir e de gesticular do cotidiano de determinados indivíduos de um determinado país e que gostam de um tipo de som que poderá ser igual ou diferente do som que gostamos. Cada pessoa tem o seu próprio gosto musical e este pode ou não influenciar na maneira de pensar, vestir e estar desta pessoa no meio.
A música é uma expressão de linguagem. A partir dela podemos interagir com o meio, reviver lembranças e emoções. A música e os efeitos sonoros servem como evocação, lembranças (de situações passadas), de ilustrações associadas a personagens do presente, como nas telenovelas – e de criação de expectativa, antecipando reações e informações, como por exemplo a trilha sonora num filme de suspense. (MORAN, 2000).

O uso correto da música pode dar bons resultados na sala de aula, tanto para ajudar na concentração, como também no relaxamento da mente e do corpo, antes, durante e depois da realização de alguma atividade escolar.
A música pode ser uma atividade divertida, que ajuda na construção do caráter, da consciência e da inteligência do indivíduo. Os sons harmoniosos fazem com que os alunos se divirtam, aprendendo naturalmente, sem pressões:
É fundamental manter um ambiente de alegria e de lucidade na classe. Sem humor, o educador não experiência o encontro existencial com o educando e bloqueia o próprio processo de ensino-aprendizagem. A educação tradicional colocou as virtudes: atenção, dedicação e responsabilidade como incompatíveis com a alegria e descontração. (CARDOSO, 1995).

Como utilizar a música na sala de aula


A música é uma excelente fonte de trabalho escolar porque, além de ser utilizada como terapia psíquica para o desenvolvimento cognitivo, é uma forma de transmitir ideias e informações, faz parte da comunicação social.
Recomenda-se as crianças em idades iniciais do desenvolvimento cerebral (0 a 6 anos) ouvir músicas eruditas, a exemplo das “clássicas”, por serem ricas em expressões sonoras propícias ao desenvolvimento da acuidade cerebral auditiva, característica esta que é de grande importância para a aprendizagem de idiomas.
No Ensino Fundamental I e II, usa-se a música há muito tempo em sala de aula, mas normalmente de uma forma apenas lúdica, sem cobrança pedagógica do conteúdo aos alunos, salvo algumas excessões.
No Ensino Médio (do 10º ao 12º ano) a música é raramente utilizada, mas ao professor interessado em enriquecer a sua prática pedagógica com música cabe estar atento à pertinência do tema musical ao assunto da matéria lecionada e fazer um planejamento que permita ao aluno desenvolver análise e interpretação da letra, defendendo-a, rebatendo-a e/ou lhe acrescentando algo.
(...)é preciso selecionar, para as aulas, textos que, por suas características e usos, favoreçam a reflexão crítica, o exercício de formas de pensamento mais elaboradas e abstratas, bem como a fruição estética dos usos artísticos da linguagem, ou seja, os mais vitais para a plena participação numa sociedade letrada. (MATTOS, in BRITO, 2001).

Podemos utilizar todas as vantagens da música na sala de aula. Ela poderá assumir o papel de prêmio para uma classe participativa e disciplinada. Mas jamais deverá utilizá-la como punição, visto que este não é o objetivo. Poderá sim, deixar uma turma sem aulas com música se tiver ocorrido problemas de indiciplina na aula anterior.
Para utilizar a música na sala de aula veremos algumas sugestões de etapas a seguir:
1.  Conseguir um aparelho de som portátil (para ser fácil de transportar e utilizar);
2.  CD, pendrive ou fita com a música previamente selecionada;
3.  Expositores com a letra da música (em cartazes, retroprojetor ou data-show);
4.  Fotocópias da letra da música para entregar aos alunos;
5.  Um questionário abordando os vários temas citados na música; e
6.  Reescrever a música em outro tipo de texto ou representação plástica (desenho, pintura, escultura, etc.) ou ainda a construção de um painel ilustrativo ou uma dramatização da música escolhida, também é uma boa maneira para verificar se o conteúdo foi bem compreendido pelo aluno.
Produzir músicas também é muito útil, porque o aluno estará em contato direto com tudo que é necessário para se fazer música. Essa atividade faz com que ele pense em instrumentos, letra, arranjos, entonação de voz, etc., tudo de uma vez só. Portanto, estará pensando globalmente e criando.

Observações relevantes sobre a utilização da música na sala de aula


A partir da análise de respostas dadas por vários professores a um questionário aplicado por estudantes de uma Universidade no Brasil (Acadêmica do 4° semestre do Curso de Letras habilitação em Línguas Portuguesa e Inglesa e Respectivas Literaturas, Área de Ciências Humanas, UNIFRA, Rio Grande do Sul), a sugestão para trabalhar com a música em sala de aula é introduzi-la no conteúdo como um suporte de autocontrole, um instrumento que possibilita uma aula dinâmica e descontraída. Para esses educadores o trabalho com a linguagem musical deve ser interessante, tanto para os professores como para os alunos. No entanto, isso só acontecerá se existir uma conscientização da expressividade individual do aluno e o respeito pela capacidade de criar, de dinamizar com esse instrumento em sala de aula.
Esta mesma pesquisa também fez com que chegassem a conclusão de que frente à música, a criança torna-se mais espontânea, porquanto este é um excelente material de desenvolvimento motor, afetivo e cognitivo. Porém, o trabalho frente aos jovens do Ensino Fundamental II e Ensino Médio torna-se mais complicado a utilização desse instrumento, pois os professores entrevistados nesta pesquisa colocaram como principal entrave a escolha das músicas a serem abordadas, “quanto mais antigas as músicas forem, mais difícil será desperta a curiosidade do aluno ao conteúdo, que com ela, foi adicionado”.
Como solução a está questão proponho que o professor escolha os mais variados temas a serem abordados, mas que ao invés de ser ele a escolher o som a ser tocado, deixar com que seus alunos o façam em conjunto e ainda criar a possibilidade da construção de uma nova letra para a melodia escolhida. Daí o aprendizado partirá primeiro do aluno e o professor será apenas um suporte para o fechamento e conclusão dos conceitos abordados.

Considerações finais


Percebemos então, que é muito importante o professor utilizar a música em sala de aula, procurando compreendê-la em sua plenitude, com todos os fatores que a constroem - instrumentos, letras e seus sentidos, sonoridade; buscando desenvolver o prazeroso trabalho de escutar os mais diversos sons e suas composições. Mas, para que isso se torne um trabalho determinante em qualidade, o professor deve dedicar-se, atualizar-se e fundamentar-se nesse instrumento. Os alunos também devem fazer suas lições de casa com um CD ou até um rádio ligado ao lado. Se a música escolhida pelo aluno for a adequada e ideal para o momento, não podemos definir apenas isto como motivo do baixo rendimento escolar.
A música na sala de aula não deveria ser utilizada apenas como atividade lúdica, mas sim como um instrumento de disciplina e de combate às dificuldades de aprendizagem, de memorização de conteúdo, ou como um recurso para atenuar a violência. Nessa interação entre professores e alunos, a música como mediadora, deveria ocorrer com o propósito de intensificar algumas características humanas como a sensibilidade auditiva, a imaginação, a criação de músicas e letras, a comunicação, a interpretação, entre outras.
(…) mas a música, em sala de aula, pode ir além de apenas um instrumento, ela é capaz de promover o desenvolvimento do ser humano, torná-lo capaz de conhecer os elementos de seu mundo para intervir nele, transformando-o no sentido de ampliar a comunicação, a colaboração e a liberdade entre os seres. (LOUREIRO, 2007).

Referências bibliográficas


- CARDOSO, C. M. A canção da Intereza: uma visão holística da educação. São Paulo: Summus, 1995.
- LOUREIRO, A. M. A. O ensino de música na escola fundamental. Papirus, 2007.
- MATTOS, J.M. O texto escrito no contexto escolar. In: BRITO, E.V. (Org.); PCNs de língua Portuguesa: a prática em sala de aula. São Paulo, Arte & Ciência, 2001.
- MORAN, J. M. Novas tecnologias e mediação pedagógica. Campinas, SP: Papirus, 2000.
-SOARES, D. Os Vínculos como passaporte da Aprendizagem: um encontro D’EUS. Rio de Janeiro. Caravansarai, 2003.

Revista Construir Notícias - Páginas 36, 37, 38 e 39.
Edição nº 53 - Ano 09

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